A Primeira Noite sem Mamãe
Ontem aconteceu algo que nós dois, eu e meu marido, não esperávamos: nossa pequena, aquela que sempre grita "Quero minha mamãe!", dormiu sozinha – e, pasmem, na companhia do pai.
A rotina de dormir aqui em casa é um verdadeiro ritual materno-sagrado. Sou eu quem troca a fralda, veste o pijama, acende as luzinhas coloridas, apaga as outras luzes, e se ajeita na caminha para ler uma história com a voz mais calma possível (mesmo quando estou morta de cansaço). A parte final envolve um pedido especial dela: "Mamãe, quero dormir na cama alta" E lá vamos nós, subir para aquela cama de solteiro, rostinhos colados, onde eu também acabo dormindo. Quando não apareço até as 22h, o marido já sabe que precisa me buscar.
Só que ontem foi diferente.
Meu marido deu o papá, como de costume, e antes mesmo de ele sugerir, ela pediu: "Quero colocar o pijama e dormir." Trocamos olhares de "tenta,né". Desconfiamos, claro. Minutos depois, estranhei o silêncio vindo do quarto. Não havia grito de "quero mamãe", nem resistência, nem briga pelo pijama errado. Nada.
Fui espiar, com cuidado, na ponta dos pés. Lá estava ela. Dormindo. Na cama dela. Sozinha.
Troquei olhares com meu marido como quem diz: "Isso tá mesmo acontecendo?" E sim, estava. Não teve grito. Não teve choro. Ele contou depois que ela mesmo deitou na cama, pediu um carinho nas costas, no pé e em minutos dormiu. E como num sonho, conseguimos jantar com calma. A gente se olhou na mesa e brindamos silenciosamente, como dois sobreviventes em meio a uma trégua inesperada.
Aquela pequena vitória parecia absurda de tão simples: nossa filha dormiu sem precisar da mamãe. Um marco. Ela está crescendo. Aí acho que sentirei saudades da nossa rotina do sono quando ela não existir mais.
Eu não sei se essa nova fase vai durar – se amanhã vou voltar para a cama alta e para minha rotina sonolenta de leitura de histórias. Mas hoje, meu coração está em festa. Cada conquista dessas é um lembrete de que os filhos crescem, ganham asas, e de vez em quando nos dão uma folguinha para respirar.
E assim seguimos, um dia de cada vez, sem perder o fio da história – mesmo que às vezes eu também caia no sono no meio dela.


Comentários
Postar um comentário